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O Espírito Santo e a Gastronomia

Atualizado: 23 de jun. de 2021



Passei o Dia da Região dos Açores na Terceira, a famosa Segunda-Feira do Bodo, infelizmente este ano (mais uma vez) sem festas exteriores, sem dúvida muito mais triste – mas não deixou de haver fé.

Apesar da nossa fama, acredito que a fé e o amor dos terceirenses não se manifesta só com festas; a nossa devoção é profunda, vem de dentro de nós. Experimento isso em pequenas coisas: observo-o na minha avó, que antes de se deitar beija sempre o ceptro da sua Coroa do Espírito Santo, na trabalheira que a Alda Lima, com ajuda do Emanuel Félix, tem em cada queijada Dona Amélia, desenhar a coroa do Espírito Santo com o açúcar em pó, vejo-o quando o meu vizinho Ricky aparece em minha casa com sopas, etc. A nossa fé é mais forte que o vírus, e é também por isso que sinto orgulho em ser Açoriana (e, admito, até um orgulho um pouco irracional: é que já estive quase a discutir com um desconhecido no metro em Lisboa, pois ele estava a comentar com o amigo que os Açores “não eram assim tão bonitos” – foi a única e a última vez que alguém disse isso à minha frente, não o admito!).

Contudo, ou não seríamos terceirenses, a nossa fé tem esta particularidade de se manifestar à mesa (e eu gosto tanto disso). Nós temos a capacidade de juntar o sagrado e o humano num prato. Por isso, hoje escrevo sobre o Espírito Santo e a comida.

A explicação da Santíssima Trindade e da Divindade do Espírito Santo não são temas complexos, são mesmo mistérios da fé: tu acreditas porque sim, não esperas explicações científicas e racionais, acreditas e pronto, e depois de acreditares torna-se impossível não amar. E as nossas Funções ao Espírito Santo são uma manifestação desse amor, do amor de um povo, que não o é dos ricos ou dos pobres, mas de todos. As Funções são promessas pagas, são agradecimentos a Deus, são saudades de emigrantes, são pelas almas.

Uma comida, que é feita para Deus que não é abençoada apenas no momento de a cozinhar ou de a comer, desde que se escolhe a vaca, acabada de nascer até à distribuição da carne, ela já está destinada. Quando o criador trata da vaca, ele já sabe ela não é dele.

Depois, o Bodo, a Coroação e a Função – como é uma festa de todos, não há lugares marcados, e por isso tem de ser com mesa e bancos corridos, o que faz um arraial bonito.

Quem já serviu um ao Divino, experiência que tive a graça de ter no Império da Rua de Baixo de São Pedro, sabe que cada ritual tem uma razão e é tradição que nós temos a obrigação de manter e de ensinar às próximas gerações.

Quando falamos em Funções, falamos de uma cozinha popular, essencial na nossa cultura, falamos em famílias inteiras que se dedicam voluntariamente à cozinha, falamos de uma freguesia unida à volta de uma mesa, falamos em comida com receitas centenárias, falamos em comida simples mas extremamente rica em sabor, falamos em serviço, falamos numa gastronomia popular de origem, sem inculturações e sem afrancesamentos. Falamos dos Açores.

As nossas sopas, a alcatra e o arroz doce, um pirolito para os pequenos e vinho para os adultos (mas atenção: o Espírito Santo merece mais e melhor que o vinho de cheiro), a massa sovada a acompanhar e o alfenim em forma de pomba distribuído pelas mesas – tudo isto é mais do que comida: é fé.


Crónica publicada Diário Insular, 9 de Junho 2021

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